O poema em foco - VII / T. S. Eliot: Mr. Apollinax
Quando Mr. Apollinax visitou os Estados Unidos
Seu riso tilintou entre as taças de chá.
Eu me lembrei de Fragilion,
Aquela arisca figura entre os álamos
E de Priapus, pelos arbustos,
Mirando a dama no balanço.
No palácio de Mrs. Phlaccus,
Com o professor Channing-Cheetah,
Ele riu como um foetus irresponsável.
Sua risada era submarina e profunda
Como se jôra o velho dos mares
Oculto sob ilhas de coral
Onde aflitos corpos de afogados
Imergiam no verde silêncio
Tombando dos dedos das ondas.
Olhei a cabeça de Mr. Apollinax
Agitando-se numa cadeira
Ou zombando detrás de um biombo
Com algas nos cabelos.
Ouvi sôbre solo firme
Pancadas de cascos de centauros
Enquanto sua fala viva e sêca
Devorava a tarde.
"É um homem encantador" - Mas
Afinal o que queria dizer?" -
"Suas orelhas ponteagudas...
Deve ser desproporcionado"
- "Há uma coisa que êle disse
Que eu deveria ter contestado."
Da viúva Phlaccus
E do professor e sra. Cheetah
Lembro uma rodela de limão
E um bolinho trincado.
Logopéia, segundo Pound, "a dança do intelecto entre palavras", isto é, o emprego de palavras, não de acôrdo com o seu significado direto, extraído dos dicionários, mas tomando em consideração os hábitos e modismos do uso da linguagem corrente. Para. o mesmo Pound (que influenciou profundamente a Eliot), o grande inventor da logopéia é Jules Laforgue, do qual Eliot também deriva uma das variantes de sua obra poética - principalmente a primeira fase, quando despontaram criações famosas, como Portrait of a Lady ou êste satírico Mr. Apollinax, aqui, a linguagem coloquial mescla-se à carga alusiva, mormente através da invocação a figuras mitológicas ou, em especial, ao famoso quadro de Fragonard, O Balanço. Uma dialética de imagens e permuta de observações triviais, em clima de sátira e ironia, onde o alvo é o estar de uma sociedade. Também o non-sense, no esfumaçado de uma era épica-romântica, embaçada pelo cotidiano, atingindo o absurdo. Segundo George Williamson, um poema que significa estar "cada ação de Apollinax registrada numa reação do narrador e sempre numa imagem; e as imagens, finalmente, são colocadas em contraste com os comentários dos outros, que permanecem confundidos pelos seus paradoxos".
tradução e nota de José Lino Grünewald
Correio da Manhã
26/10/1968