Saxifraga
autora Claudia Roquette-Pinto
Editora Salamandra, 39 pgs.
"Quem na face escura/ pendura a lua/ esse sorriso?" Claudia Roquette-Pinto despacha o seu cartão de visitas. De fato, "um
desatino de asas". O título do livro - "Saxífraga" - já diz quase
tudo.
Esculpir com as palavras: não mais o buril de Gautier, porém a tensão de palavras-coisa (assim falava a poesia concreta). Na
orelha, Carlito Azevedo lembra o poema de William Carlos Williams
- "Uma espécie de canção" - onde está a saxífraga, que é "minha flor que rompe as rochas". E neste curto poema do amigo de Pound está a bússola da obra de Claudia: "Compor (não idéias/ mas coisas)/ Inventar!" E, assim como de praxe, caímos na frase esteticamente histórica de Mallarmé: "A poesia não é feita com idéias e sim com palavras".
O livro apresenta 30 poemas, sendo que três em prosa. Um deles - "Deserto para ouvi-las" de altíssimo coturno, com o discurso deslisando com o entremear daqueles asteriscos fisiognômico-significantes. Cada poema ocupa só uma página, como se esta última fosse até moldura. Quem sabe?
Vamos agora ao método da poeta. De saída, o predomínio dos substantivos concretos. A partir disso, na maioria dos casos, cria um ritmo intencionalmente "irregular", sincopado, rascante, através do uso intensivo do enjambement e da tmese - só de tmeses, ao longo do livro, contamos 44. Ao mesmo tempo, abolir a pontuação convencional dos sinais gramaticais (poderiam, por contradição, traduzir "o ruído que perturba a informação"). Só existem alguns dois pontos - e um ponto, poucas vírgulas, os travessões, algumas vezes dispensáveis, são mais frequentes. E modular o texto com alterações e assonâncias - bons exemplos: "desvendava o vendaval" ou "dentro de ti medita um sol mediterrâneo".
Então, desfechado o processo, chegamos ao núcleo, ou cerne, ou recheio: o próprio poeta girando em torno de si mesmo e de sua visão ou sensação do mundo. Daí, a razão estética (isso ocorre em todos os casos) e seus motivos. No tocante a "Saxífraga", são quatro os focos de indução: as coisas, as pessoas (incluindo a própria autora), os pintores e - o principal – a poesia.
Os poemas em torno dos pintores são instigantes e criativos, plenos de efeito - já não trouxesse a autora uma predominância colossal da fanopéia. Exemplos: "Snap-shot" (Claude Monet), com o terceto "quando foi que eu saí daquele rosto/ e do olhar-redondo: olho-poço/ em que me debruço (tombo) agora?; "Stabile" (Calder) - que assim começa: "coisa esquisita equili/brada e libera, em dédalos..."; o casal (Marc Chagall): "ela mulher em fuga breu vestido rufia/ ele eis um homem que aprendeu a flutuar".
Não estamos diante de um livro fácil; já fica até evidente pela amostragem que fiz. Mas o novo está no difícil. Não se trata aqui do santo hermetismo. O desafio mora no convite para destrinchar o relacionamento das palavras, um relacionamento não-convencional a fugir dos padrões daquele discursivo tradicional. Além do já citado William Carlos Williams, daquele poema do jarro de Wallace Stevens, das afinidades com um Francis Ponge ou o Lorca dos poemas curtos, das "Canções", resta a sensação de que se chega a um nível substantivo. Cláudia fala em "the armed vision". Isto logo nos faz lembrar aquela grande linhagem da crítica Americana de grande objetividade, aquela de um Empson, um Richards, um Brooks, um Warren, um Blackmur, Burke etc., muito superior aos estruturalistas franceses da década de 1960 (Barthes, a exceção). Achamos curioso esse seu encaixe do "olho armado".
Enfim, a homenagem ao Tio Iauaretê, digo Guimarães Rosa, numa peça precisa e que termina no melhor da linha cabralina: "e o rastro: areia/ que desaba/ ao peso, sempre/ das patas". Palmas. Além de Carlito de Azevedo, com as suas "Banhistas", e de Alexei Bueno, com o seu "Lucernário", "Saxífraga" é um dos raros livros de poesia criativa nestes dois ou três ultimo’s anos.
O Globo
23/01/1994