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Xerloque da Silva

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O infalível

O diretor da TV chamou o produtor do programa e o animador ao seu gabinete e disse: "Meus senhores, o programa Aonde vai o seu Saber está levando esta emissora à falência". "Mas como?"- fala o produtor- "se o meu programa é o de maior audiência no País inteiro?". "É, mas o senhor se esquece de que aquêle maluco que está respondendo sôbre ópera já ganha um bilhão e meio e se, na próxima audiência, responder às três perguntas, vai para cinco e picos e nós à miséria". "Que fazer? O cara sabe tudo". "Quero ação! êsse tal de Matheus Mathias não pode acertar tudo, ouviram? Pesquisem, viajem, aumentem nestes dias o número de assessôres especializados, gastem o que quiserem. O importante é que êsse maníaco cometa um êrro; só um errinho de nada dá para salvar a empresa. Afinal, estamos todos no mesmo barco: conosco, a falência, com vocês o desemprêgo".
Dia do programa, todos os receptores no mesmo canal. Chega nove e meia - a hora, fatal. O animador dá um salto no palco, com a simpatia risonha disfarçando o pavor interno, recebe palmas e anuncia: "E agora, Matheus Mathias, o homem infalível, estará com vocês, graças às Alpargatas Leves". Palmas, palmas, palmas, urros, berros e entra um homem baixinho de gravata borboleta, cabelo ralo, que agradece, tímido, e se senta numa cadeira. Animador: "Atenção! - primeira pergunta: "O que estava fazendo o padrinho do primo mais velho de Caruso, no dia em que êste gravou um disco da Mattinata, com Leoncavalo ao piano?" Resposta fulminante: "Estava regando flores na janela dos fundos". Palmas, urros, berros. Aos poucos, o silêncio tenso: Segunda pergunta: "Quantas vêzes Bellini encontrou-se com o tenor Rubini para discutir sobre Os Puritanos?" Resposta-raio: "12 vêzes". Berros, ganidos ainda sobressaíam da saraivada de palmas. O animador começa a suar grosso; o diretor, no seu gabinete, começa a chorar. O animador passa a gaguejar a sua pergunta: "Quan-quan-quantas fo-fo-foram..." - cai no chão, levanta-se, diante do maníaco imperturbável. Vaias. O diretor vai ao toillette. O produtor, desesperado, dependura-se nas cortinas do palco. Restabelecido, o animador emite a pergunta: "Quantas foram as idas de Zenatello, na infância, ao seu parque predileto em Verona?" Em resposta, um tiro que varou o pescoço do infalível. Escuridão, pânico, correria, sirenas.
No dia seguinte, o inspetor de polícia disse ao "diretor: "O sr. está perdido". "Não sou culpado do crime". "Não é isso, já prendemos o assassino, um fanático que tinha inveja do Matheus. Quero, sim, avisá-lo que ficou arruinado". "Como?" "Logo antes de morrer, na ambulância, êle me escreveu aqui neste papel a resposta certa e teston os 5 bilhões para a mãe. Leia e paguc". "Ai, miserável!" Acabou arrastado para o hospício.

Correio da Manhã
12/02/1969

 
Fiscal fisgado
Correio da Manhã 14/01/1969

A mesma ilha
Correio da Manhã 15/01/1969

Bonnie sem Clyde
Correio da Manhã 16/01/1969

Imersão geral
Correio da Manhã 17/01/1969

Sinuca sangrenta
Correio da Manhã 18/01/1969

O homem-fome
Correio da Manhã 19/01/1969

Crime numa nota só
Correio da Manhã 22/01/1969

A receita do seu Zezé
Correio da Manhã 23/01/1969

A luta conjugal
Correio da Manhã 24/01/1969

O mistério do professor vermelho
Correio da Manhã 25/01/1969

Teatro Leve
Correio da Manhã 26/01/1969

O transplante
Correio da Manhã 28/01/1969

Idem idem
Correio da Manhã 29/01/1969

Cadê Zizi
Correio da Manhã 01/02/1969

Barulhinhos
Correio da Manhã 02/02/1969

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