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Xerloque da Silva

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Os berros

"Pega ladrão! pega ladrão!" - os berros cortaram o abrir da madrugada e, logo, várias luzes se acenderam em quase todos os prédios da rua. Um homem bigodudo, de short, casaco de pijama, sapatos de lona e uma espécie de porrete numa das mãos, pulou o portão, aterrissando na calçada e gritou; "Onde está? onde está?" - latidos intermitentes de cães. Varou a rua de ponta, a ponta, já então seguido por alguns rapazolas e um vigia particular, e, no entanto, nada - absolutamente nada, nem o ladrão, nem o autor dos berros. Silêncio, ligeiro bate-papo do grupinho, palpites de cá e de lá e voltou todo mundo a dormir.
No dia seguinte, mais ou menos na mesma hora, repetiu-se a dose: os berros, seguidos pelo pulo do bigodudo de porrete, a turma varejando a rua de alto a baixo e nada. Assim repetiu-se o fato mais três dias e, em decorrência, na outra manhã, o bigodudo, chefiando uma comissão de moradores, foi ao Distrito pedir providências. "A verdade é que, seu comissário, ninguém na rua consegue dormir há quase uma semana." O comissário determinou que dois guardas fizessem a ronda a partir daquela noite. Os moradores, com o bigodudo à frénte, voltaram satisfeitos.
"Pega ladrão! pega ladrão!" - os berros ainda foram mais lancinantes aquela noite. Cada guarda saiu correndo de sua esquina e quase se chocaram, os dois, no meio da calçada, enquanto o bigodudo despontava com o clássico porrete. "Não vimosvninguém." O bigodudo levou as mãos à cabeça, depois de jogar com fúria o porrete no chão. E, assim, aconteceu mais dois dias.
O bigodudo reuniu a assembléia dos moradores da rua e combinou que, no portão de dada residência, fícaria, até o raiar do dia, um homem armado de vigília, enquanto os guardas estariam em movimento constante. "Assim não há chance dêsse maluco ou irresponsável escapar - que vá cantar noutra freguesia."
Noite. Em cada portão, um vulto atento. Só se ouvia o toc-toc dos passos dos guardas. O bigodudo, de seu pôsto, emitia uma série de sinais manuais, como se fosse o regente de uma orquestra insólita. Por volta das 2 da manhã, comentou com o vizinho do lado: "Dessa vez espantamos o tarado; vou dar um pulinho dentro de casa para beber um gole d'água e não demoro." Mal entrou na casa, notou que ela estava tôda revirada. Deu logo falta de vários objetos de prata. No seu quarto, também revirado, a mulher roncava: haviam levado tudo em material de dinheiro e jóias. Desceu de nôvo e percebeu que haviam invadido a casa pelos fundos que davam para outra rua - ali estava abandonada uma escada de pintor. Saiu então correndo e emergiu, desvairado, do seu portão, a gritar: "Pega ladrão! pega ladrão!" Ao ouvi-lo, a turma, na rua, gritou: "É ele, tasca! tasca!"

Correio da Manhã
14/02/1969

 
Fiscal fisgado
Correio da Manhã 14/01/1969

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Correio da Manhã 15/01/1969

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Correio da Manhã 17/01/1969

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Correio da Manhã 19/01/1969

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Correio da Manhã 22/01/1969

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Correio da Manhã 23/01/1969

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Correio da Manhã 24/01/1969

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Correio da Manhã 25/01/1969

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Correio da Manhã 26/01/1969

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Correio da Manhã 28/01/1969

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Correio da Manhã 29/01/1969

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Correio da Manhã 01/02/1969

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Correio da Manhã 02/02/1969

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