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Xerloque da Silva

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Vocação irresistível

Estava, fagueiro, sentado na cela, quando o chefe da guarda entrou e disse: "Está livre, pode ir embora." Ergueu-se, apertou o cinto e exclamou: "Mas como! Por que?" "Anda, vai, vai", e o policial ia empurrando-o em direção da porta aberta. "O sr. sabe, eu queria ficar aqui, mato a fome, durmo em cima de colchão e não sou maltratado; além disso, não sei trabalhar, nem tenho documentos." "Ora, seu vagabundo; arranje trabalho; um homem forte como você sonhando com a vadiagem!"
Assim saíu. Mal viu-se na calçada, sentiu-se desprotegido. Tinha permanecido na cela cêrca de uns quatro meses, por tentativa de roubo da caixa registradora de um bar. Roubara para matar a fome e alimentar a preguiça. Agora, ali estava, de calça rasgada, camisa velha e chinelo descosido. Não tinha ninguém e, seguer, um tostão. "Vou começar a pedir esmola", pensou. E também se decidiu. Adiante, conseguiu carona de um caminhão de mudanças .
Desceu na Avenida Vieira Souto. No primeiro edifício, tomou o elevador de serviço. Eram cêrca de quarto horas da tarde, quando apertou o botão do 201. Uma preta entreabriu a porta: "Quero falar com a patroa, da parte do dr. José." "Espera aí." Veio uma mulher quarentona de roupão e coque: "Que dr. José?" "Desculpe, mas eu queria uma esmola para comer." "O sr. é atrevido." "Não, sou desprotegido." Ela riu, voltou lá dentro e reapareceu com uma nota de dez cruzeiros novos na mão: "Tome, aproveite minha generosidade e não vá beber." "Só tomo escocês." "Atrevido!" Já estava escada abaixo.
Sentou eufórico, mirando o mar. Súbito, um crioulinho quase lhe esfrega na cara uma tira de bilhetes de loteria. A sugestão foi violenta, a terminação do número era 201. Comprou três pedaços e guardou o troquinho. De noite, com o resto do dinheiro, comeu um sanduíche no boteco e foi dormir na praça. Acordou, vagou o dia inteiro e chegou a pé no centro da Cidade, na hoia do resultado. Nem deu no bico: lá estava afixado o seu número em cheio: 21201.
Uma semana depois, a mulher elegante estava sentada na buate, quando o acompanhante se levantou. Viu, então, aquela mão afilada e bem tratada depositar uma nota de dez à sua frente: "Mas como, o senhor?" "Sim, sou um, sujeito excêntrico, às vêzes finjo pedir esmolas por causa de uma pesquisa que estou jazendo." "Que interessante!" "Um escocês?"
Ela deixara o marido e êle ali estava, morando na Vieira Souto, mirando o mar de outro ângulo. Triplicara o dinheiro. Tédio. Teve uma idéia, vestiu-se de mendigo e foi esmolar. Acabou sendo prêso por vadiagem e foi parar na cela antiga. "O senhor não se emenda, não luta para ganhar dinheiro?", disse o guarda. "Dinheiro não traz felicidade", falou sorrindo. "Vagabundo!" "Amém", murmurou.

Correio da Manhã
25/02/1969

 
Fiscal fisgado
Correio da Manhã 14/01/1969

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Correio da Manhã 15/01/1969

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Correio da Manhã 16/01/1969

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Correio da Manhã 17/01/1969

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Correio da Manhã 18/01/1969

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Correio da Manhã 19/01/1969

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Correio da Manhã 22/01/1969

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Correio da Manhã 23/01/1969

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Correio da Manhã 24/01/1969

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Correio da Manhã 25/01/1969

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Correio da Manhã 26/01/1969

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Correio da Manhã 28/01/1969

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Correio da Manhã 29/01/1969

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Correio da Manhã 01/02/1969

Barulhinhos
Correio da Manhã 02/02/1969

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